“Ativismo gordo” contra a gordofobia: rompendo paradigmas corpóreo-sociais

Ana Maria Veiga, Professora do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba, editora do periódico Sæculum e divulgadora da Revista Estudos Feministas, João Pessoa, PB, Brasil.

Vera Gasparetto, Pós-doutoranda em Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina, integrante do Instituto de Estudos de Gênero, jornalista e divulgadora da Revista Estudos Feministas, Florianópolis, SC, Brasil.

Inúmeros textos, acadêmicos ou não, vêm sendo escritos nesse período de pandemia, e entre eles está um dos importantes artigos que abrem o volume 28, número 2 da Revista Estudos Feministas, intitulado “COVID-19, instituiciones financeras internacionales y continuidad de las políticas androcéntricas”, de Juan Pablo Bohoslavsky e Mariana Rulli. No entanto, percebemos que os efeitos da pandemia se apresentam de maneira potencializada quando perpassados por questões interseccionais, como raça, gênero, classe, geração, localização, sexualidade e, por que não, a corporeidade. Assim, pretende-se colocar em destaque as pressões que tensionam as vidas e vivências das mulheres gordas, e que são apresentadas pelo artigo escrito pela psicóloga Camila Ferraz, pela socióloga Roberta Mélo e pela cientista social Rebeca Ferreira, intitulado “Imagina ela nua!”: experiências de mulheres que se autodeclaram gordas”.

Não é de hoje que a gordofobia é naturalizada na sociedade brasileira, sendo frequentemente motivo de piadas ou de aversão. Dentre os hábitos e as manias de uma prática consumista capitalista, que dita comportamentos e padrões sociais, o culto ao corpo de gerações modeladas por aparelhos de ginástica e intervenções cirúrgicas levou a uma relação com o espelho que originou mais uma das discriminações e das intolerâncias às diferenças que fazem parte do convívio humano. Não queremos afirmar, com isso, que corpos gordos não fossem notados antes, mas é possível detectar um acirramento de um crivo de julgamento que associa corpos magros a pessoas saudáveis, desejáveis, “normais”. Os corpos gordos entram hoje nas fileiras das diferenças tratadas pelo conceito de interseccionalidade. E é certo que as pressões sobre eles são muito maiores quando se trata cumulativamente de mulheres “gordas”, negras, lésbicas, trans, com deficiência, pobres.

O tema vem sendo trabalhado por autoras e autores como Marina Paim (2019), Marina Paim e Douglas Kovaleski (2020) e Natália Rangel (2017), apenas para citar alguns exemplos neste campo que vem se constituindo de forma cada vez mais potente no Brasil.

Com base nas reflexões suscitadas, buscamos um aprofundamento da temática da gordofobia e do agenciamento do ativismo gordo ao interrogar as três autoras mencionadas. A entrevista foi respondida de maneira coletiva, com a síntese do pensamento das pesquisadoras. São elas:

Será a gordofobia um dispositivo de poder para o controle dos corpos e das subjetividades das mulheres e a serviço da indústria da “beleza”, uma das mais rentáveis do mundo capitalista e entre as que propagam opressões relacionadas também a raça e classe?

Autoras: A gordofobia é um dispositivo de poder que, por meio do constrangimento dos corpos, está associada à indústria da “beleza” quando a alimenta e direciona as pessoas na busca por produtos e procedimentos que prometem o alcance do corpo que é estabelecido como belo. Além disso, faz sentido compreender que há, também, uma associação entre a indústria da beleza, as representações biomédicas e a mídia, que dá vez e voz para o processo de manutenção/propagação daquilo que é um corpo certo ou errado. O apelo consumista ao qual a gordofobia atende traz, em sua base, a normalização de um corpo que é magro, mas também branco. Joice Berth fala da “encruzilhada de opressões” ao referir-se ao acúmulo de experiências vividas pelas mulheres negras. Pensar, por exemplo, as vivências de mulheres gordas e pretas por esse prisma, nos leva a refletir sobre corpos que são desrespeitados estrutural, institucional e politicamente, de variadas formas, o que é constantemente reforçado pelos padrões mercadológicos, que, por sua vez, promovem a exclusão dos corpos desinteressados ou sem condições de consumi-los.

Poderíamos pensar que o corpo voluptuoso de uma mulher considerada gorda incomoda, assim como as vozes das mulheres que não aceitam ficar caladas? De forma análoga, corpo e voz expandidos são incômodos na sociedade das normas (patriarcal, heteronormativa, branca, nortecentrada)?

Autoras: Sim. Quando se pauta sobre algo fora do padrão, há uma enxurrada de discursos que tentam desvalorizar a luta, até que haja um esgotamento e o silenciamento. Sendo assim, “colocar o corpo pra jogo” torna-se um modo de resistência. O incômodo com o corpo gordo parece reverberar nas tentativas de intimidar sua visibilidade. Sua inadequação é fabricada por meio de uma arquitetura dos espaços pensados predominantemente para corpos magros. Isso dificulta a acessibilidade e a inserção da pessoa gorda nos mais variados âmbitos, dos assentos dos transportes aos aparelhos de exames médicos. Seja nas formas explícitas ou nas minúcias do cotidiano, o corpo gordo se vê insistindo em circular num mundo magro.

Que desafios metodológicos vocês percebem para as pesquisas nesse campo de estudos que aos poucos vai se constituindo?

Autoras: Pode-se dizer que nós visualizamos, antes de tudo, uma dificuldade epistêmica, sobretudo se considerarmos as disputas de narrativas em torno do corpo gordo. Uma vez que observamos, entre outros aspectos, os discursos patologizantes e as formas de depreciação com que as interlocutoras se deparavam cotidianamente, foi preciso problematizar determinados aspectos das abordagens de outros campos do conhecimento, com o cuidado de não parecer que estávamos negando o saber científico. Há uma narrativa culturalmente legitimada que sugere a responsabilização da própria pessoa pela sua condição corporal, o que termina por dificultar, por exemplo, o entendimento da gordofobia enquanto uma questão estrutural e coletiva. Talvez isso explique, em parte, certa morosidade com que as questões do corpo gordo vieram a se firmar enquanto campo de estudos. De todo modo, é notório que da época da construção do nosso trabalho para cá muitas produções acadêmicas sobre o tema têm sido divulgadas, assim como o ativismo gordo tem ocupado um lugar importante nas redes sociais e também na própria academia.

Referências

BOHOSLAVSKY, J. P. and RULLI, M. Covid-19, instituciones financieras internacionales y continuidad de las políticas androcéntricas en América Latina. Rev. Estud. Fem. [online]. 2020, vol. 28, no. 2, e73510, ISSN: 1806-9584 [viewed 11 August 2020]. DOI: 10.1590/1806-9584-2020v28n273510. Available from: http://ref.scielo.org/54gvb5

PAIM, M. B. Os corpos gordos merecem ser vividos. Rev. Estud. Fem. [online]. 2019, vol. 27, no. 1, e56453, ISSN: 1806-9584 [viewed 11 August 2020]. DOI: 10.1590/1806-9584-2019v27n156453. Available from: http://ref.scielo.org/ygztzg

PAIM, M. B. and KOVALESKI, D. F. Análise das diretrizes brasileiras de obesidade: patologização do corpo gordo, abordagem focada na perda de peso e gordofobia. Saude soc. [online]. 2020, vol. 29, no. 1, e190227, ISSN: 1984-0470 [viewed 11 August 2020]. DOI: 10.1590/s0104-12902020190227. Available from: http://ref.scielo.org/3kvvc5

RANGEL, N.F. de A. A emergência do ativismo gordo no Brasil. In: Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress, Florianópolis, 2017 [viewed 11 August 2020]. Available from: http://www.fazendogenero.ufsc.br/wwc2017/

Para ler o artigo, acesse

MENEZES, C. F. J.; FERREIRA, R. L. P. and MELO, R. de S. “Imagina ela nua!”: Experiências de mulheres que se autodeclaram gordas. Rev. Estud. Fem. [online]. 2020, vol. 28, no. 2, e60118, ISSN: 1806-9584 [viewed 31 August 2020]. DOI: 10.1590/1806-9584-2020v28n260118. Available from: http://ref.scielo.org/brj3wq

Links externos

Revista Estudos Feministas – REF: www.scielo.br/ref

Facebook: @revistaestudosfeministas

Instagram: @refeministas

Sobre as autoras

Camila Ferraz é Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). E-mail: juca.camila@hotmail.com

 

 

 

 

Roberta de Sousa Mélo é Doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. É Professora Adjunta do Colegiado de Educação Física da Universidade Federal do Vale do São Francisco e membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Educação Física da mesma instituição. É líder do LECCORPO – Laboratório de Estudos da Cultura Corporal. Temas de atuação:  Aspectos Socioantropológicos do Corpo; Gênero; Sociologia do Esporte. E-mail: rdesmelo@gmail.com

 

Rebeca Luisa Passos Ferreira é Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) e Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). E-mail: rluisapsi@outlook.com

 

 

 

Ana Maria Veiga é professora do curso de História e do PPGH da Universidade Federal da Paraíba, com pós-doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina. É editora da Sæculum – Revista de História, editora de divulgação da Estudos Feministas e líder do grupo ProjetAH: História das mulheres, Gênero, Imagens, Sertões. E-mail: anaveiga.ufpb@gmail.com. http://lattes.cnpq.br/5507849878186996

 

Vera Fátima Gasparetto é pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH/UFSC), Área de Estudos de Gênero, Bolsista do Programa Nacional de Pós Doutorado/Capes, Pesquisadora do Instituto de Estudos de Gênero e do Centro de Estudos Africanos (CEA) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) – Moçambique. E-mail: gasparettovera@gmail.com. http://lattes.cnpq.br/1869239071282523

 

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

VEIGA, A. M. and GASPARETTO, V. “Ativismo gordo” contra a gordofobia: rompendo paradigmas corpóreo-sociais [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/09/24/ativismo-gordo-contra-a-gordofobia-rompendo-paradigmas-corporeo-sociais/

 

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