Os paulistas e a abolição como estratégia de poder

Rodrigo Goyena Soares, Professor colaborador e Pós-doutorando no Departamento de História, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil.

A Província de São Paulo, 16/11/1889. Available from: acervo.estadao.com.br

Costumeiramente, as grandes transformações no Estado brasileiro foram pautadas por grupos que se disseram porta-vozes de novidades somente realizáveis na dilaceração do que julgavam vetusto. Getúlio Vargas quis um Estado Novo, impingindo à república que derrubou o epíteto de velha. Também os militares de 1964 quiseram-se as forças da transformação, para depois de algumas décadas sucumbirem a uma república prontamente qualificada como nova. Em boa medida, a Proclamação da República inaugurou a persistente tradição da novidade, paradoxalmente, mudando apenas o que convinha às classes vitoriosas no processo. Entre elas, os cafeicultores paulistas, e muito especialmente um bloco campineiro, compreenderam que a mudança de regime viria com o término da escravidão, porque a associaram corretamente as bases fundacionais do Império. É o que propõe o artigo “Racionalidade econômica, transição para o trabalho livre e economia política da abolição: a estratégia campineira (1870-1889)”, publicado em dossiê temático organizado pelo periódico História (São Paulo, vol. 39).

Por todas as evidências, a tarefa do bloco campineiro não seria fácil. Em primeiro lugar, seus correligionários da lavoura paulista, assim como eles próprios, eram personalidades apegadas ao cativeiro. Valiam-se de escravos não apenas como mão de obra para o cafezal, mas também como garantia de crédito para contrair empréstimos com o Banco do Brasil, a principal instituição financeira da época. Sem o braço escravo, não haveria nem capital, nem colheita. Em segundo lugar e de forma correlata, o trabalho cativo permaneceu lucrativo até a década de 1880, não destoando dos ganhos próprios ao sistema livre de produção. É esta uma das contribuições do artigo. Mediante levantamento de fontes primárias relativas ao custo da produção cafeeira, a proposta reexamina uma historiografia mais antiga e defensora da opção paulista pelo trabalho livre, pois supostamente mais racional e, portanto, menos arcaica em termos econômicos.

O estudo também propõe, amparando-se na correspondência entre as lideranças paulistas recolhida no Centro de Memória da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que o bloco campineiro assimilou a abolição, quando remediada por políticas migratórias paulistas, como meio para fragilizar a cafeicultura escravista rival – sobretudo a fluminense. Mas não só. Ao associar o cativeiro às forças políticas que sustentavam o Império, o grupo compreendeu que a abolição renovaria os rostos políticos na administração pública. Um ganho de espaço, ao fim, de maior interesse para reordenar a distribuição fiscal, muito concentrada no Rio de Janeiro, e a estrutura bancária do Império, igualmente monopolizada pela Corte. Longe de representar um ímpeto de igualdade social ou um projeto inclusivo, a abolição campineira foi antes uma equação de economia política, que pediu uma necessária paciência estratégica para realizar-se. Aguardaram, pois, a precipitação dos acontecimentos – e sobretudo o desabrochar do movimento abolicionista – para empurrar os cafeicultores paulistas em direção a uma república que teria São Paulo no centro de sua direção.

Parte de uma pesquisa em andamento, o artigo sugere também alguns rumos de investigação, especialmente no que diz respeito às contradições entre as ambições financeiras paulistas e a política econômica do Império, nas décadas de 1870 e de 1880, muito polarizada pelos interesses fluminenses. Tensionadas até seu paroxismo em 1889, essas incoerências, do mesmo modo, acenaram para as aproximações entre republicanos civis e veteranos da Guerra do Paraguai (1864-1870): os principais atores, em suma, da derrocada do Império.

No vídeo a seguir, Rodrigo Goyena Soares comenta como a pesquisa foi realizada e amplia a discussão sobre os resultados da investigação na qual este estudo se inscreve.

Referências

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Para ler o artigo, acesse

GOYENA SOARES, R. Racionalidade econômica, transição para o trabalho livre e economia política da abolição: a estratégia campineira (1870-1889). História [online]. 2020, vol. 39, e2020032, ISSN: 1980-4369 [viewed 26 November 2020].https://doi.org/10.1590/1980-4369e2020032. Available from: http://ref.scielo.org/dr8wrc

Links externos

História (São Paulo) – HIS: www.scielo.br/his

Rodrigo Goyena Soares: http://labmundi.fflch.usp.br/rodrigo-goyena-soares

Sobre o autor

Rodrigo Goyena Soares é historiador e cientista político. Doutor em História Social, é atualmente professor colaborador no Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP), onde realiza estágio de pós-doutorado. Autor do Diário de Campanha do Conde d’Eu, seus principais campos de pesquisa envolvem a história das classes sociais no Brasil Imperial, a história econômica do Segundo Reinado e a história da política externa brasileira. E-mail: rodrigo.goyenasoares@usp.br  (http://lattes.cnpq.br/0480350663856431)

 

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SOARES, R. G. Os paulistas e a abolição como estratégia de poder [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/11/26/os-paulistas-e-a-abolicao-como-estrategia-de-poder/

 

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