A importância da intuição no ensino básico para a formação da cidadania

Por Kátia Kishi, jornalista – Labjor/Unicamp, Campinas, São Paulo, Brasil

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Fonte: Arquivo pessoal do entrevistado.

“Uma boa decisão melhora não apenas a saúde, a situação financeira e o bem-estar do indivíduo, mas também, de sua comunidade como um todo. Para poder tomar boas decisões, o que se necessita é conhecer as evidências básicas, bem como o pensamento estatístico. E, num mundo de incertezas, você também precisa de boas heurísticas e intuições. E coragem.”, afirma o psicólogo alemão Gerd Gigerenzer, um dos principais pesquisadores do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humanoem Berlim, sobre o debate da “racionalidade ecológica”, discutida em uma entrevista realizada por Danilo Romeu Streck para o periódico Educação & Pesquisa, volume 40, número 3, publicado pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP).

A “racionalidade ecológica” faz uma crítica à racionalidade científica hegemônica e aos “saberes” baseados por essa lógica, pois, assume que o mundo é repleto de incertezas e muitas vezes é impossível avaliar todos os fatores de uma questão, sendo que algumas tomadas de decisão só ocorrem por meio de processos intuitivos. Essas estratégias práticas para alguns problemas são conhecidas como heurísticas, “caixas de ferramentas adaptáveis” no cérebro humano que não trazem uma solução perfeita, mas auxiliam em questões complexas.

Gigerenzer explica que a racionalidade ecológica é utilizada todos os dias; até mesmo médicos, juízes e administradores se apoiam nela em suas profissões, mas não admitem porque no mundo ocidental de hoje, confiar em um pensamento intuitivo em que a razão não explica plenamente não é bem aceito. Também se pode notar a presença desses “atalhos” em ações do cotidiano, como a decisão por trocar de emprego, que não é gerada apenas pelo balanço de prós e contras e muito menos de cálculos complexos, mas de um longo processo evolutivo do cérebro humano que dá aptidão para essas escolhas: nesse caso determinado pela intuição.

A reflexão que Streck trouxe para a entrevista, é que esse fundamento filosófico pode ser adotado em todas as áreas do conhecimento, no entanto, deve-se dar mais atenção em desenvolvê-la na educação. Isso porque ele aponta que a escola moderna está em crise e com dificuldade em trabalhar com uma sociedade plural, na qual as pessoas têm diversas informações e formas de pensar e se expressar, entretanto, essa racionalidade pode ser introduzida nas escolas. O pesquisador alemão defende esse posicionamento classificando como uma “alfabetização de risco”, que traz a ideia do pensamento estatístico, e que pode desenvolver uma cidadania melhor informada e uma democracia mais participativa, trata-se de um instrumento para a formação do pensamento autônomo nas escolas.

Entre as competências que podem ser introduzidas nos conteúdos das escolas, o psicólogo alemão inclui as habilidades de cozinhar e praticar esportes, conhecimentos sobre a saúde e os riscos de algumas escolhas e o conhecimento psicológico, por exemplo, de como a propaganda tenta manipular as pessoas. Segundo o pesquisador, essa alfabetização é importante para a formação da cidadania, para justificar essa teoria, ele aponta um dos projetos do Max Planck que trabalha com a alfabetização em saúde no ensino fundamental, em que se discute desde o início da infância os riscos de alguns estilos de vida. Para exemplificar, ele aponta as dificuldades em alguns tratamentos de câncer (mesmo com o alto investimento em tecnologia e medicação) sendo a melhor forma de reduzir o peso da doença na sociedade é a prevenção por meio de algumas mudanças de hábitos.

Para ler a entrevista, acesse:

STRECK, D.R. Racionalidade ecológica e formação de cidadania: entrevista com Gerd Gigerenzer. Educ. Pesqui. [online]. 2014, vol. 40, n° 3, pp. 829-843. [viewed February 21th 2015]. ISSN 1517-9702. DOI: 10.1590/s1517-97022014400300201. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-97022014000300016&lng=en&nrm=iso

Link externo:

Educação e Pesquisa – http://www.scielo.br/ep/

Sobre o autor:

Prof. Dr. Danilo Romeu Streck, doutor em Fundamentos Filosóficos da Educação: streckdr@gmail.com e danilo@unisinos.br

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

A importância da intuição no ensino básico para a formação da cidadania [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2015 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2015/03/09/a-importancia-da-intuicao-no-ensino-basico-para-a-formacao-da-cidadania/

 

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