Violência e resistência na luta pela terra em Minas Gerais

Lêda Maira Batista, Voluntária na Varia Historia, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil

Parte da historiografia dedicada ao estudo do Golpe de 1964 no Brasil considera que esse episódio representou o domínio autoritário do Estado por parte das forças conservadoras, instituindo a barbárie e a precarização das condições de vida como normas de sua política interna. Contudo, no plano do cotidiano e da história vista por baixo, é possível e necessário analisar as vidas daqueles que resistiram politicamente ao se organizarem, liderarem e manifestarem lutas em torno do direito à vida e à terra. Este é o objetivo de Arnaldo Zangelmi no artigo “Mediações políticas silenciadas: Repressão, resistência e luta pela terra em Cachoeirinha (1964-1985)”, publicado no periódico Varia Historia (v. 35, n. 69), ao evidenciar a atuação de diferentes setores na luta pela reforma agrária e por melhorias nas condições de vida no campo ao investigar a articulação política entre grupos da esquerda – Partido Comunista Brasileiro, Ação Popular, Ligas Camponesas – e os trabalhadores rurais (MEDEIROS, 1989).

Arnaldo Zangelmi coloca em questão a difundida percepção de que os “trabalhadores rurais mineiros agiam sem qualquer vinculação com formas de organização, utopias e projetos de sociedade sistematizado” (ZANGELMI, 2019, p. 926). Na verdade, é a escassez de estudos históricos que acabou por possibilitar a difusão da ideia de que as ações dos trabalhadores rurais eram “mobilizações fragmentadas e veladas” (ZANGELMI, 2019, p. 926), dificultando o conhecimento a fundo das redes de solidariedade e das influências mútuas entre os atores sociais – como as bandeiras da sindicalização rural e da reforma agrária na sua interação local e nacional. No entanto, a expressão posseiro ou camponês assume um sentido de luta ao se referir aos homens, às mulheres e às famílias que foram expulsas de suas posses, em oposição ao de latifundiário, que expressa o privilégio dos fazendeiros locais em consonância com a predação das multinacionais.

Valendo-se da micro história e da história oral, o autor realiza uma pesquisa rigorosa em termos de fonte histórica, mobilizando desde entrevistas com os atores sobreviventes e com os herdeiros dos eventos aqui narrados, até a consulta de um vasto material escrito pela imprensa, por órgãos públicos e pelos movimentos sociais que foram atuantes neste contexto de mobilização popular. Assim sendo, Zangelmi traz uma significativa contribuição aos estudos sobre a luta pela terra na ditadura militar brasileira, ao argumentar que houve atuação em estratégias de resistência no setor mais pobre da população rural, e com isso, acaba por evidenciar a vastidão de vozes organizadas em torno de projetos políticos comuns.

Referência

MEDEIROS, L. S. de. História dos movimentos sociais no campo. Rio de Janeiro FASE, 1989.

Para ler o artigo, acesse

ZANGELMI, A. J. Mediações políticas silenciadas: Repressão, resistência e luta pela terra em Cachoeirinha (1964-1985). Varia hist., v. 35, n. 69, p. 921-952, 2019. ISSN: 0104-8775 [viewed 15 November 2019]. DOI: 10.1590/0104-87752019000300009. Available from: http://ref.scielo.org/mmt5s7

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

BATISTA, L. M. Violência e resistência na luta pela terra em Minas Gerais [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/11/19/violencia-e-resistencia-na-luta-pela-terra-em-minas-gerais/

 

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