Funk, cultura do estupro e “violência ostentação”

Aline Veras Morais Brilhante, Professora do Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Universidade de Fortaleza – UNIFOR, Fortaleza, CE, Brasil

Atuando como artefacto, a música é produzida e interpretada performativamente. Apesar de produzir discursos cuja ideologia passa frequentemente despercebida – ou exatamente por isso – a música opera com grande influência na construção das subjetividades. Partindo desta premissa, quatro pesquisadoras da Universidade de Fortaleza, que atuam em diferentes frentes no enfrentamento a violência sexual contra a mulher, escreveram o artigo “Rape culture and ostentatious violence: an analysis from the artifactuality of funk (Cultura do estupro e violência ostentação: uma análise a partir da artefactualidade do funk)”, publicado no periódico Interface – Comunicação, Saúde, Educação (v. 23). O artigo busca analisar, à luz do construcionismo social, músicas de funk com ampla repercussão midiática e compartilhamento em serviços de streaming no primeiro semestre de 2016, cujos discursos remetem à violência sexual. As músicas selecionadas foram “Baile de Favela” – música brasileira mais tocada no Reveillon de 2016 no serviço de streaming Spotify – e Malandramente – música mais ouvida ao longo do primeiro semestre de 2016 nos principais serviços Spotify e Apple Music. Os achados da pesquisa foram organizados em 3 categorias – Construção da vítima perfeita, Erotização da infância na construção de vítimas e agressores e Ostentação do estupro coletivo – e descortinaram um panorama preocupante. Os sentidos da violência sexual nos discursos das músicas expuseram a construção de relações conflituosas entre os gêneros como norma social. Nesse processo letras e performances das músicas em questão contribuem para a construção de um contexto cultural que normatiza a violência sexual contra a mulher, construindo tanto vítimas como agressores potenciais. Neste contexto, é mister destacar o papel do funk como um território tanto na perspectiva funcional como na simbólica. Sendo um espaço de sedimentação simbólico-cultural, o funk atua como suporte de identidades individuais e coletivas. A restrição aos chamados “bailes de asfalto” no período de vigência da Lei Álvaro Lins (assinada em 2008 e revogada em 2009) culminou não apenas no surgimento dos “bailes de favela”, como no crescimento progressivo do sentimento de pertença da juventude favelada com essa música, que nomeia seus lugares de origem e significa suas histórias.

A relação entre erotismo e violência nas letras de funk demanda, portanto, o entendimento de sua interseccionalidade com questões de raça, classe e gênero (BAUER, 2014). É necessário capturar as consequências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação para compreender que aquela mulher não apenas é alvo da violência de gênero, como também é privada da tutela social que lhe garantiria o status de vítima (BAUER, 2014). As autoras descortinam nas letras a “ritualização da feminilidade” (GOFFMAN, 1999), como descrita por Goffman. Ocorre que esta ritualização normativa – que demanda a punição de àquelas que fujam ao normatizado – não depende de atitudes, mas de passividades. A subordinação social da mulher implica na supressão de sua autonomia sexual tanto para vivenciá-la livremente como para recusar a investida masculina (BRILHANTE; NATIONS; CATRIB, 2018). Neste contexto, vale discutir a forma, o racismo, o patriarcalismo, a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios, em intersecção, criam desigualdades básicas que potencializam as mais variadas formas de violência (Bauer, 2014). Vale ressaltar que as autoras não criticam o instituto do funk. Ao contrário, reconhecem seu papel como representante da cultura popular e como movimento político e social. Contudo, discutir a violência expressa e o potencial de dano em grande parte de suas letras e em suas performances contribui para o estabelecimento de relações de gênero mais justas e menos violentas.

Referências

BAUER, G. R. Incorporating intersectionality theory into population health research methodology: challenges and the potential to advance health equity. Soc Sci Med., n. 110, p. 10-17, 2014. ISSN: [reviewed 30 January 2019]. DOI: 10.1016/j.socscimed.2014.03.022. Avaliable from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24704889

BRILHANTE, A. V. M., NATIONS, M. K. and CATRIB, A. M. F. “Taca cachaça que ela libera”: violência de gênero nas letras e festas de forró no Nordeste do Brasil. Cad. Saúde Pública, v. 34, n. 3, e00009317, 2018. ISSN: 1678-4464 [viewed 30 January 2019]. DOI: 10.1590/0102-311×00009317. Disponível em: http://ref.scielo.org/8ynzd2

GOFFMAN, E. A ritualização da feminilidade. In: GOFFMAN, E. Os momentos e os seus homens. Lisboa: Relógio D’Água; 1999. p. 154-189.

Para ler o artigo, acesse

BRILHANTE, A. V. M. et al. Rape culture and ostentatious violence: an analysis from the artifactuality of funk. Interface (Botucatu), v. 23, e170621, 2019. ISSN: 1414-3283 [reviewed 30 January 2019].  DOI: 10.1590/interface.170621. Available from: http://ref.scielo.org/qyd7f4

Link externo

Interface – Comunicação, Saúde, Educação – ICSE: www.scielo.br/icse

Observatório de Violência contra a Mulher – Observem: https://observem.com.br

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

BRILHANTE, A. V. M Funk, cultura do estupro e “violência ostentação” [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2019 [viewed ]. Available from: http://humanas.blog.scielo.org/blog/2019/03/15/funk-cultura-do-estupro-e-violencia-ostentacao/

 

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