Por que a população negra é a principal vítima da pandemia COVID-19?

Luís Eduardo Batista, Pesquisador Científico da Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, SP, Brasil.

Adriana Proença, Jornalista, integrante do Grupo Temático Racismo e Saúde da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, SP, Brasil.

Alexandre da Silva, Professor do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina de Jundiaí, SP, Brasil.

Sem dúvidas, a pandemia revelou que os grupos populacionais historicamente negligenciados estão entre os mais atingidos e expostos ao maior risco de óbito e menor acesso à vacinação. E este descaso, quase óbvio para quem analisa a saúde da população negra, inclusive antes da pandemia, deveria ser um ponto de atenção para os órgãos de saúde no Brasil, pontuam os autores.

Apesar dos esforços, os dados revelaram que a população negra tem sido a principal vítima do descaso dos poderes públicos e de sua dificuldade em viabilizar políticas públicas que promovam a equidade.

No que diz respeito ao tema iniquidades racial, há uma resistência da sociedade em divulgar dados que comprovem a veracidade dessa realidade no Brasil e que demonstra a presença do racismo na saúde. A imprensa diária e as publicações científicas pouco contribuíram na construção de narrativas para que ações e políticas públicas efetivas fossem criadas para a redução dos danos causados pela Covid-19 na população negra.

Constatadas as falhas do Ministério da Saúde na operacionalização das ações para a mitigação e proteção da população negra contra o adoecimento e óbitos pela Covid-19, juntando a necessidade de propor alternativas para o combate mais efetivo da pandemia Covid-19 e estabelecer um diálogo com a população, pesquisadores do GT Racismo e Saúde investiram na produção do conhecimento e na divulgação científica sobre o impacto do racismo na saúde e no cenário da pandemia por coronavírus. Para atingir esse objetivo, pesquisadores do GT publicaram 13 notas em blogs e jornais diários que, posteriormente foram organizadas e sistematizadas em um e-book. Integrantes do GT Racismo e Saúde também participaram da publicação de artigos científicos, concederam entrevistas ou participaram de programas televisivos e criaram articulações com outros movimentos.

Além disso, houve a elaboração do editorial Covid-19 e a população negra da edição de número 25 da Revista Interface, Comunicação, Saúde, Educação (25, e210470) sobre o impacto do racismo na saúde em tempos de pandemia, a partir da perspectiva teórica do GT Racismo e Saúde, e destacou que “os negros são as principais vítimas da pandemia e a Covid-19 tem cor.”

Imagem: Júlio Almeida/Abrasco.

“O racismo estrutura profundamente a nossa sociedade e tem relação com as condições de trabalho, renda, emprego e escolaridade. Ele determina o local de moradia e a possibilidade de acessar ou não direitos à justiça, a bens e à serviços de saúde. De acordo com Silva, et al. (2018) a qualidade da assistência e os cuidados prestados também revelam como o racismo opera no sistema de saúde e desafiam a agenda da gestão pública. Para além desses fatores, o racismo articula-se com a pobreza, o sexismo, o idadismo e as diferentes realidades subjetivas. Ora um elemento fica mais aparente, ora outro, e diversas vezes há interseccionalidade de dois ou mais desses elementos”. (Batista LE, Proença A, Silva, 2021)

Em uma tentativa de alertar as autoridades sobre a vulnerabilidade da população negra, integrantes do GT fizeram um esforço redobrado para produzir e publicar notas em blogs e jornais diários que mostrassem a importância de se garantir que os dados de raça/cor fossem incluídos nas fichas de notificação para Síndrome Gripal e Síndrome Respiratória Aguda e nos boletins epidemiológicos divulgados pelo Ministério da Saúde. E mais, que a população quilombola tivesse prioridade no Plano Nacional de Vacinação.

Para a produção e divulgação dessas notas o GT Racismo e Saúde recebeu apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Com os recursos do UNFPA foi possível contratar uma jornalista e dois bolsistas especialistas na utilização de banco de dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Enquanto os bolsistas produziam dados, os integrantes do GT elaboravam os textos e a jornalista fazia contatos com a grande imprensa, a imprensa alternativa, a regional e blogs de instituições que têm como pauta o enfrentamento ao racismo.

Uma das conclusões desse trabalho com banco de dados foi a percepção de que o critério geográfico, associado ao critério etário, trariam melhores resultados na logística de imunização, pois em territórios com maior vulnerabilidade, pessoas idosas ou de grupos específicos ainda tiveram mais chances para adoecimento e morte.

Toda essa produção, incluindo o editorial, denunciam o impacto do racismo, classicismo, machismo, etarismo e da segregação residencial na saúde, e inovam ao recomendar ações sobre o que precisava e ainda precisa ser feito para diminuir os efeitos da infecção pelo coronavírus para todos os segmentos da população negra, como quilombolas, ribeirinhos, pescadores, pessoas privadas de liberdade, população que vive em situação de rua e em domicílios que não respondem aos padrões de habitabilidade, incluindo a falta de abastecimento de água ou esgotamento sanitário.

Referências

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE SAÚDE COLETIVA (ABRASCO), ORGANIZAÇÃO GRUPO TEMÁTICO RACISMO E SAÚDE DA ABRASCO. População Negra e Covid-19 [viewed 25 November 2021]. Rio de Janeiro: ABRASCO, 2021. Available from: https://www.abrasco.org.br/site/wp-content/uploads/2021/10/E-book_saude_pop_negra_covid_19_VF.pdf

SILVA, A., et al. Iniquidades raciais e envelhecimento: análise da coorte 2010 do Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento (SABE). Rev Bras Epidemiol [online]. 2018, vol. 21, Suppl 2, e180004 [viewed 25 November 2021]. https://doi.org/10.1590/1980-549720180004.supl.2. Available from: https://www.scielo.br/j/rbepid/a/5pkvYctZXXwWFXHMTbfYrfp/?lang=pt

Links externos

Blog Interface: https://interface.org.br/blog/

Facebook – Interface: https://www.facebook.com/interface.comunicacaosaudeeducacao

Interface – Comunicação, Saúde, Educação: http://www.interface.org.br/

Interface: https://www.scielo.br/icse

Twitter – Interface: https://twitter.com/interface_rev

Para ler o artigo, acesse

BATISTA, L.E., PROENÇA, A. and SILVA, A. Covid-19 e a população negra. Interface (Botucatu) [online]. 2021, vol. 25 [viewed 25 November 2021]. https://doi.org/10.1590/interface.210470. Available from: https://www.scielo.br/j/icse/a/RRgJnJCtpsXFZYRhCGykzJb/?lang=pt

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

BATISTA, L.E., PROENÇA, A. and DA SILVA, A. Por que a população negra é a principal vítima da pandemia COVID-19? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/11/25/por-que-a-populacao-negra-e-a-principal-vitima-da-pandemia-covid-19/

 

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Post Navigation